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Câmara Municipal de Curitiba

Curitiba, Brasil

Premiado em concurso nacional como menção honrosa

“Construir é colaborar com a terra: é colocar um marco humano numa paisagem, marco que a modificará para sempre; é contribuir também para a lenta transformação que constitui a vida das cidades.”


Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano, 1951)

A história viva

“E a cidade vai ficando sem história…”. Esta tem sido a percepção de muitas pessoas com a rápida transformação de nosso entorno construído. Frente a isso, a proposta apresentada pode parecer à primeira vista conservadora, pois visa preservar, além do edifício do Palácio Rio Branco, o seu Anexo moderno projetado por Cyro Correa Lyra, assim como o edifício da Antiga Sede do Centro de Processamento de Dados (CPD) do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), projetado por José Hermeto Palma Sanchotene.

Entendemos que não há nada mais pertinente no debate sobre o patrimônio construído do que também valorizar as edificações do período moderno, ainda mais aquelas cuja autoria e/ou impacto foram reconhecidos em seu devido momento, tanto pela obra em si, como pela contribuição na formação crítica de diversos arquitetos e urbanistas da cidade de Curitiba.

O moderno como patrimônio

Ambos os edifícios modernos a serem preservados apresentam escala adequada ao conjunto da Praça Eufrásio Correia, planta livre, estrutura sólida, além de níveis coincidentes – fatores que permitiram uma integração espontânea ao programa da nova edificação proposta. Evitando tantas demolições, trabalhamos com sustentabilidade e ecoeficiência.

Partido volumétrico

A relação com a praça e as edificações históricas que a conformam foi determinante para a proposição volumétrica escalonada do conjunto, que ora dialoga com praça através da plenária, ora com a altura das edificações preservadas (térreo + quatro pavimentos), para finalmente assumir sua maior altura (térreo + sete pavimentos) na porção frontal à Avenida Visconde de Guarapuava.

Função simbólica

A nova plenária da Câmara, por seu posicionamento, volumetria horizontal e materialidade, passa a ser um foco de luz e transparência para a antiga praça e para a Rua da Liberdade de outrora (atual Rua Barão do Rio Branco).

Paisagismo: Terraços, descompressão e uso do recuo

O novo edifício proposto, por ser escalonado, permite a criação de uma sucessão de terraços de descompressão, ampliando tanto a oferta de espaço público, como áreas privativas para os vereadores e funcionários da Câmara. A ideia paisagística parte de princípios de restaurar a biodiversidade local, trabalhando no jardim sobre as lajes os ameaçados “campos nativos de Curitiba”, altamente importantes do ponto de vista ecológico-histórico, com suas espécies-chave de mínima manutenção e que contribuirão para atrair pássaros, borboletas e abelhas sem ferrão. Coexistirão entre porções de laje sombreada e espelhos d’água, permitindo o uso destes terraços como áreas de lazer e representatividade institucional.

Recuperar a praça Eufrásio Corrêia

Na questão paisagística e urbana, propõe-se restaurar a pavimentação original de pedriscos de areia na praça histórica, como a existente no Passeio Público da cidade, além de implantar uma linha turística de bonde elétrico conectando a Antiga Estação Ferroviária ao Centro – tal como previsto em projetos anteriores previstos pelo IPPUC.  A rua que separa o Palácio da praça histórica receberá pavimentação nivelada com a calçada, indicando o seu uso de desaceleração e compartilhado com pedestres. As quadras da praça e do Palácio recebem a extensão do piso em petit pavé, delimitando claramente as quadras originais. O caminho porte-cochère em frente ao Palácio poderá agora assumir sua simetria original.

Tecnologia construtiva: um diálogo entre épocas

O Palácio Rio Branco, projetado pelo engenheiro Ernesto Guaita no final do séc. XIX para ser a Assembleia Legislativa do estado, é um edifício de fundação de pedra e alvenaria de tijolos maciços, ícone do eclético-neoclássico, protegido pelo tombamento estadual. Atualmente demanda um estudo de cor para o tom original e a recuperação da transparência de uma série de aberturas, fechadas por razões de usos técnicos, além de pequenas intervenções para melhorias pontuais.

Na mesma quadra do palácio eclético existem dois exemplares modernos em estrutura de concreto e planta livre: o Anexo da Câmara com fachada cortina de vidro com partições verticais, projetado por Cyro Correa Lyra em 1972 e o edifício da Antiga Sede do Centro de Processamento de Dados (CPD) do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Curitiba (IPPUC) de autoria do arquiteto José Sanchotene – um edifício de fachada de concreto e janelas em fita. O edifício de Cyro Correa Lyra seguiu as indicações de acréscimos ao patrimônio da Carta de Veneza (1964), servindo como uma verdadeira aula viva de modelo de intervenção moderna em patrimônio histórico. O edifício de Sanchotene, mais discreto e de função independente do conjunto, respondeu acertadamente a critérios de projetos racionais e econômicos para instituições públicas.

A nova edificação, de arquitetura contemporânea, visa completar as necessidades programáticas da Câmara Municipal de Curitiba e pretende ser a primeira obra em altura de madeira laminada colada (MLC) da cidade , valorizando a relevância do estado do Paraná como um dos maiores produtores do setor no país. Ela foi projetada para estar apoiada em um embasamento de concreto e amarrada a núcleos de circulação vertical que promovem a integração de todo o conjunto: Palácio, Anexo e Antigo CPD – ocupando o espaço da demolição de uma obra de menor escala e relevância.
Na cobertura do edifício do Antigo CPD (cuja fachada de concreto sugerimos ser revelada) projetamos uma extensão leve em estrutura de MLC criando um espaço com pé direito ampliado para os auditórios ali localizados.
Com isso, o novo abraça a história moderna edificada, dois edifícios que além de preservados receberão as necessárias atualizações, mostrando que a cidade pode se transformar, modernizar e seguir respeitando o seu passado.

Ano: 2026
Local: Curitiba, Paraná, Brasil
Área: 19.995 m²

Equipe: Saboia + Ruiz; Sarturi Gumz (João Vitor Sarturi e Gabriella Gumz); Campo (Guilherme Schmitt e Victor Escorsin); Learn Upstairs (Oliver Uszkurat)
Consultores: Rosina Parchen (Conservação e Patrimônio); Hélio Olga (Estruturas em Madeira); Maurer Egas (Fundações e subsolos); Ricardo Dias (Estruturas do Complexo); Eduardo Ribeiro (Instalações Prediais); Aloísio Leoni Schmid (Conforto e Desempenho); Ricardo Cardim (Paisagismo); Salua Kassem Assaf (Orçamento)