Museu Marítimo do Brasil

Rio de Janeiro, Brasil

“Que lindo e diferente universo isolado por uma superfície que eu só conhecia de um lado!

Um outro mundo que coexistia com o meu, lá em cima.

Um eterno e transparente silêncio onde as tempestades só se manifestam decorando a superfície de um rendilhado branco de espuma.”

Amyr Klink (Cem dias entre o céu e o mar)

O projeto apoiou-se na ideia de travessia, como metáfora de uma viagem, para a concepção do Museu Marítimo do Brasil. No cais conectado à praça encontra-se o Pavilhão de Acesso – ou o Terminal de Partida – onde o percurso de visitação se inicia e termina. Uma passarela de pedestres, na forma de uma ponte levadiça, conecta o trajeto ao píer histórico. Ali, sobre a estrutura restaurada do molhe do século XIX, o Pavilhão Expositivo linear pousa pontualmente, liberando o térreo para as vistas e visitas às embarcações atracadas no Espaço Cultural da Marinha.

Como novo marco arquitetônico da cidade do Rio de Janeiro, o Museu Marítimo do Brasil assume seu papel de museu-contentor, mais do que museu-mirante. Com isso, surgem desafios de paisagem que condicionam a forma arquitetônica. O Pavilhão de Acesso prima pela criação de um edifício etéreo, um átrio de chegada que se converte na extensão do espaço público da praça – em respeito à orla histórica do entorno. Por outro lado, o Pavilhão Expositivo, de maior expressividade e presença, tem sua superfície externa diluída pelo arco revestido de placas cerâmicas hexagonais em múltiplos tons de branco – como as escamas de um peixe ou um rendilhado branco de espuma.

A simplicidade da proposta, condição necessária devido às fundações restauradas e ao orçamento viabilizado, é explicitada na materialidade do sistema construtivo proposto. Arcos parabólicos tri-articulados em madeira laminada colada, colocados numa sequência linear, geram a estrutura simplificada do Pavilhão Expositivo que remete à imagem de um barco ou ao interior de um peixe. Os pavimentos são estruturados por vigas de aço com seção I com perfurações para passagens de instalações.

A solução de estrutura padronizada do Pavilhão Expositivo não condiciona o interior à uma homogeneidade espacial, pois permite a articulação de mezaninos e vazios, facilitando a instalação de sistemas audiovisuais e o controle da incidência da luz natural. Objetos podem ser suspensos ou transportados com o auxílio da ponte rolante presa no topo do arco. O edifício é, de certa forma, apenas um edifício-suporte: uma tramoia linear pronta para se adaptar ao projeto museográfico, com variações de pé-direito entre 4 m, 8 m e 12.80 m (altura total interna).

O Pavilhão de Acesso destaca-se pelo plano de cobertura em vigas de madeira laminada colada, apoiado em esbeltas colunas metálicas. Um grande plano de sombreamento que delimita um abrigo fresco para as atividades ali propostas. No térreo: recepção-bilheteria, guarda-volumes, loja-livraria, serviços. E no primeiro pavimento: sala multiuso, sala de atividades educativas, sala vip, auditório e restaurante com vista para o cais. Da praça pode-se seguir pelo píer flutuante para o passeio com as embarcações ou em direção à ponte levadiça até o píer histórico aberto e aceder para visitar o Museu no Pavilhão Expositivo. No térreo do píer está localizada a cafeteria do Museu.

O percurso de visitação ao Espaço Cultural da Marinha com suas embarcações, incluindo também a visita à aeronave, carro de combate, e helicóptero em um primeiro momento, pode ser feita de maneira independente à visita ao Pavilhão Expositivo (área expositiva de longa duração e galeria temporária). Inclusive, com a proposta da segunda passarela levadiça, vinculada ao Cais da Patromoria, se cria um circuito de espaço público visitável que pode estar aberto mesmo quando o Pavilhão Linear feche o acesso. Para o projeto, que nasce carregado de valores que transitam entre história e transformação da cidade, foi proposto este circuito público, ventilado e sombreado, pela antiga Doca da Alfândega.

O percurso expositivo (temporário e permanente) inicia-se no interior do Pavilhão Linear. Neste edifício estão as áreas administrativas e de suporte às exposições. A área de carga e descarga ocorre na porção sudoeste da edificação, próxima à praça contígua ao prédio da Capitania dos Portos do RJ. Neste local é possível içar e transportar grandes volumes por ponte rolante para o pavimento superior do Pavilhão na área de recepção de obras. O pé-direito superior tem 8 metros, tendo 5,5 m de altura livre acima da área dos elevadores, permitindo o transporte de grandes peças.

No percurso expositivo proposto, o visitante acede até o segundo pavimento para iniciar sua travessia. Ele pode optar entre a exposição temporária ou ir diretamente para a entrada da exposição permanente através da sala de batismo. Neste lugar de imersão, projeções multimídias assumem toda a extensão do arco parabólico, com imagens de céus estrelados, mares e rios.

Ao seguir o percurso é dado destaque à Galeota D. João VI, que pode ser apreciada tanto a partir de área de mezanino, como a partir de sua base – no primeiro pavimento do museu. Ao se passar em frente à da orla histórica, com vistas para a Igreja da Candelária e a Antiga Alfândega, projeta-se uma sala-mirante para a cidade (área de descanso). Segue-se até o final do circuito de ida e vinda do segundo pavimento, onde é possível vislumbrar pelo mezanino a exposição no pavimento inferior. Desce-se para o primeiro pavimento, onde se situam as grandes embarcações, com possibilidade de vistas externas no sentido nordeste. Todas as rotas propostas apresentam alternativas acessíveis, com o apoio de elevadores próximos às escadas rolantes. A escada de saída leva novamente até o píer, onde estão cafeteria (área de descanso) e embarcações que completam a visita.

O projeto busca reforçar o imaginário do mar como questão simbólica essencial na história brasileira. Os tubos metálicos horizontais pintados de verde, que sustentam os arcos da estrutura do Pavilhão Expositivo, marcam um novo horizonte para a cidade do Rio de Janeiro: por baixo deles a cidade recupera um píer transitável e integra-se novamente à Baía da Guanabara; por cima flutua um novo museu, um museu para pensar-se…

Ano: 2021
Local: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Área: 7.950 m2